O movimento explica a forma
Em Novembro de 2004 escrevi esses pequenos trechos baseados na obra “The travel of romance”, de Eric Fischl. Após escrevê-los todos descobri que era com Clarice Lispector que eu estava dialogando, em “Perto do coração selvagem”.
(scene 1 of 5) I.
Um deles vai se perdendo no curso da procura pelo outro. Na casa, repousa sobre os cômodos a figura de um belo romance. Só já não há corpo nu que se enrubesça diante da sua presença. A evidência do romance, como uma vertigem que punge o peito em males e sangra dentro as dores, na pele arderia apenas como sensações de êxtase. Mas no escuro da dúvida se ele existe, mesmo que pergunta nenhuma se faça, o romance apenas se dissipa num último silêncio de desvio dela. E os cômodos de corpos em descaso se devolvem às casas que os abrigam em redutos.
Haveria, na figura do romance, uma face enegrecida. Olhando contra a luz, a mulher veria em sombras um olhar que se oculta por malícia. A face enegrecida a convidaria ao silêncio dos olhos do romance. E corrompendo a calma que lhe resta, ele a faria no próprio corpo um ser livre.
Seria a redenção de um corpo entregue, deixando pender a cabeça num alívio do peso de si própria.
Mas não. O sentimento se dissipa num torpor que reveste o corpo afligindo seu interior. O sentimento nu, contra um chão de cimento, à procura do romance não cede ao tempo de seu próprio movimento, perde-o ao se deixar imóvel. Como pode um grito sobreviver contido num silêncio?
Como o nu é a face íntima do corpo, o romance é a marca oculta na pele. Os vê quem veste os olhos com desejos secretos que se despem em vontades explícitas. É no limiar da verdade, onde se ela sutilmente pender torna-se mentira, que mora uma sensação intensa. Lá, onde chave e fechadura se confundem, o tempo adorna o sentimento que cede ao movimento do romance, não morrendo a cada último gozo estéril.
(scene 2 of 5)
II.
Como o nu é a face íntima do corpo, o romance é uma marca oculta na superfície da pele. Ele reveste os olhos com seus desejos secretos e, despindo a própria vista, de vontades íntimas ele prostra o corpo num chão público. É num limiar da verdade que mora o sentimento intenso. O êxtase de um pulo no abismo está neste impulso, não em sua queda. Lá, onde não é lugar, é onde se encontra a tal requerida chave. E, atravessando a ponte em que um nome a corresponde por homem, deixa cair entre os vãos dos dedos um coração se despedaçando no chão.
Dedos de romance se espalham pelos cômodos dos corpos que se misturam um no outro.
(scene 3 of 5)
III.
O tempo torna-se o sentimento de ceder ao movimento do romance... E no espelho do corpo já não há nenhuma marca que o acuse oculto. Quem vê por sobre a pele sem tocar a superfície do corpo? Há apenas um nada a que chamam de vazio, e indo embora com ele, seus desejos e vontades assediam a saída da casa que os abriga...
...são os cômodos dos corpos em descaso, ofegantes na própria moradia em que sobrevivem enquanto se desfazem.
(scene 4 of 5)
IV.
É um rosto de homem aprisionado em máscara? A figura do romance fugiu da casa, que agora abriga um corpo de mulher adulta...
...presa numa solidão feminina.
(scene 5 of 5)
V.
À parte o romance. À parte os cômodos dos corpos que se desfazem. São pedaços manuseados por luvas de descaso. Olha, a mulher, o homem indo embora. Um foco de luz que se espalha às costas e devolve ao corpo, que fica, o nu de uma forma feminina.
Às costas ele carrega o peso do passado na mala, o peso do olhar dela sob os pés do seu descaso pisando o caminho de ir embora. Não ouviriam mais, entre os silêncios que os mantinha, as vozes das palavras que imploravam. O homem não fala à mulher com a voz que ela suplica. Num diálogo sem raciocínio, a parte feminina aponta na mão as linhas da conversa. Não é pelo tato que se descobrem entre dois corpos, um no outro, mas ao deslizar os traços de um carinho que direciona, ao sentirem que a distância possui uma desmedida e é de infinito que ela é feita. O infinito feminino que dura o instante. É de mulher o seu doce aroma de novo a cada mesmo que o difere, uma fragrância sem frasco que aprisione, incontida entre paredes de vidro, agora opacas pelo hálito de homem que fica.
Foi quando um descaso os precipitou, que ele vestiu-se e partiu a casa em cômodos de partes equívocas. De um lado e de outro, a memória como consolo e rastro. Desalinhando os passos na casa, a mulher destruiu os caminhos e cerrou-se num casulo de lembranças, à luz do dia infindável do passado, aquele momento de nenhum fato, no mais profundo de si mesma, sob a pele de qualquer lua e a falta de roupa de qualquer dia, tendo agora pela vida seu superficial e sincero descaso, esculpindo no próprio corpo um abraço em si mesma para sempre dado.
Não há FIM.
*
“Eis-me de volta ao corpo. Voltar ao meu corpo. Quando me surpreendo ao fundo do espelho assusto-me. Mal posso acreditar que tenho limites, que sou recortada e definida. Sinto-me espalhada no ar, pensando dentro das criaturas, vivendo nas coisas além de mim mesma. Quando me surpreendo ao espelho não me assusto porque me ache feia ou bonita. É que me descubro de outra qualidade. Depois de não me ver há muito quase esqueço que sou humana, esqueço meu passado e sou com a mesma libertação de fim e de consciência quanto uma coisa apenas viva. [...]
“Tento isolar-me para encontrar a vida em si mesma. No entanto apoiei-me demais no jogo que distrai e consola e quando dele me afasto, encontro-me bruscamente sem amparo. No momento em que fecho a porta atrás de mim, instantaneamente me desprendo das coisas. Tudo o que foi distancia-se de mim, mergulhando surdamente nas minhas águas longínquas. Ouço-a, a queda. Alegre e plana espero por mim mesma, espero que lentamente me eleve e surja verdadeira diante de meus olhos. Em vez de me obter com a fuga, vejo-me desamparada, solitária, jogada num cubículo sem dimensões, onde a luz e a sombra são fantasmas quietos. No meu interior encontro o silêncio procurado. Mas dele fico tão perdida de qualquer lembrança de algum ser humano e de mim mesma, que transformo essa impressão em certeza de solidão física."
Salvei num pedaço de papel o trecho inteiro. Intitulei “O movimento explica a forma” (é a última frase do trecho) e escrevi que ele ia da página 78 à 83. É da Clarice, em Perto do Coração Selvagem.
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Post dedicado a vocês.