Segunda-feira, Janeiro 1


Let’s get it ON
Carta de ano novo aos amigos de sempre



Se começa... Mas o que termina?

O ponto final é um degrau em falso, pequeno riso de fôlego no fluxo da rotina. Não.

Não!

Não vou ceder à antiga mania de pôr fim nas coisas para sediar começos e assim perder de vista os “vãos e vêm” que ficam. Mesmo porque, desta vez, me completo mais escancaradamente justo neste intervalo, de um ano que se esvai enquanto um outro já iniciava, os vivendo tanto quanto e fazendo do espacinho que os separa um só caminho de distância.

Eu.

Não contabilizo, vou somando. Por isso o que vem fica para ir embora logo em seguida. Mas, “em seguida” já é o quanto do que fica, não indo embora.

Não há embora”, me digo.

Minha forma de dizer que caminhamos por uma espiral que só se prolonga, não pára, e que esse continuar é um tempo que não envelhece, é feito um espelho que não importa quando irá sempre refletir do mesmo jeito a imagem posta à sua frente. Assim, desprezo os números e letras da capacidade de perceber a beleza e a dor sem ceder ao medo de correr risco.

Olha só, falando assim = significando processo, é de uma partezinha do todo que invento, como os outros fazem, um início, apenas como uma forma figurativa, uma figura formalizada ou uma firula de começo de ano mesmo. Assim, falo não do que não veio, nem viria ou vinha, mas está aí e continua, sempre esteve, vocês vêem? Um final de ano que não é o meu, nem do que faço, apenas um ponto fixo na costura do calendário. O comemoro, ok!, entornando o riso num copo de bebida. Outro mais, por favor!

(...)

É estranha esta forma de afeto coletiva. O que não é estranho já se conhece, como a família. Deixa então eu enfiar o dedo nesta ferida de saudade, afinal, o prazer de tê-la no corpo é saber que ela logo cura em seguida.

(...)

Não nos acostumamos a sentir saudades nunca, pois o costume se torna eliminá-la da vida da gente diariamente. Uma batalha perdida, mas não é o começo nem o fim que nos incita. É durante este episódio breve de nossas vidas que concretizamos os caminhos dela inteira. Não me fale de começo ou fim, pois nunca se sabe quando termina.

Que os sentimentos provoquem os acontecimentos, não o contrário.”

Nada de mais o que eu escrevo, apenas uma veneração a meu modo e ao nosso jeito. (...) Destes fatos todos que as pessoas comemoram, aproveito para desfrutar da satisfação que faz aniversário em cada reencontro nosso e amadurece meus sentimentos no prazer dos dias que se espalham uns nos outros, não terminando simplesmente porque os olhos se fecham ou os dias mudam de nome ou número.

(...)

Esta carta foi escrita em Janeiro de 2005.
(Omiti o que está sobre o espaço, mantive o que está sob o tempo)

Meu abraço.


Quinta-feira, Dezembro 7

Minha prece semanal


Eu queria dizer ao mundo que aqui eu não estou. Ver se assim ele se afasta de mim e devolve este peso às costas de outro corpo à toa.


"Agora vou embrulhar minha angústia dentro do meu lenço. Vou amassa-la numa bola apertada. (...) Vou levar minha angústia e deposita-la nas raízes sob as faias. Vou examina-la, pegá-la entre meus dedos. Não me encontrarão. Comerei nozes e procurarei ovos entre as sarças, meu cabelo ficará emaranhado e vou dormir sob as sebes, bebendo água das poças, e morrerei lá"

Virginia Wolf, em As Ondas

Terça-feira, Dezembro 5

Abandono


(...)

Levam-no embora sem você brigar, levantar a voz, falar em resposta... Só lhe resta conceder a parte da sua vida que vai sendo levada enquanto você morre. A resignação é a sua maior conquista aqui e todo dia de amanhã é uma incógnita por não se poder fazer nada por ele. E esse nó, essa dorzinha que lhe incomoda a garganta, saiba disto, se trata apenas das lágrimas misturadas às poucas esperanças, à espera que estão de romperem seu corpo quando você fechar os olhos e dormir no silêncio dos que se conformam.


Junho, 2004.

Mudança


Do outro lado dos cômodos, está dormindo o pai. Enquanto os passos sussurram a saída dela da casa, as dobradiças das portas parecem chamar pelo nome a mãe. "Acorde, acorde, ela está indo embora".

Ao chegar ao apartamento dele, despiu-se de sua família e, da bagagem, tirou seu corpo. O ar poluído que entrava pela janela a agraciava com o doce perfume da liberdade. "Não importa, apenas que de casa você tenha saído", pensava.

O silêncio no apartamento passou a incomodar sua coragem e, pelos cantos dos cômodos, começou a enxergar os vestígios de sua nova preocupação. Entre as peças de roupa atiradas ao chão, descobriu algumas cápsulas vazias e um preservativo ainda molhado pelo frescor do sexo. De onde estava, através de um fio de imagem que se espremia entre a porta aberta e a parede do corredor, viu que ele a traía na cama.

Uma surpresa seguida de um espanto. Os olhos incharam. Decidiu ir embora. Não tinha o mínimo de autonomia para fazer um escândalo, muito menos segurança o suficiente para permanecer ali através de um bilhete.

No caminho de casa, sem derramar nenhuma lágrima, mas com os olhos brancos, pensou em mudar de vida, ser diferente. Carregou consigo o mesmo pensamento, antes de ouvir os sussurros e gritos de sua casa, agora avisando que ela voltava.


Sexta-feira, 11 de Abril de 2005

Segunda-feira, Dezembro 4

"Desejo e angústia são forças disponíveis em cada um de nós e que procuram um objeto sobre o qual se exerceu. Vivemos apaixonados sem que saibamos por quem. No teatro de nossa alma é montada uma comédia amorosa, cujos papéis temos escritos na cabeça desde as leituras da infância, e procuramos a atriz à qual atribuir o de mulher amada." Em busca de Marcel Proust, biografia escrita por André Maurois.


O homem alicia a mulher enquanto, na verdade, ela já o tem como sua conquista.


(em 18 de Abril de 2005)

Quinta-feira, Novembro 30

456.


Há quanto tempo não escrevo! Passei, em dias, séculos de renúncia incerta. Estagnei, como um lago deserto, entre paisagens que não há.

No entanto, corria-me bem a monotonia variada dos dias, a sucessão nunca igual das horas iguais, a vida. Corria-me bem. Se dormisse, não me correria de outro modo. Estagnei, como um lago que não há, entre paisagens desertas.

É freqüente o desconhecer-me – o que sucede com freqüência aos que se conhecem. Assisto a mim nos vários disfarces com que sou vivo. Possuo de quanto se muda o que é sempre o mesmo, de quanto se faz tudo o que é nada.

(...)

De tal modo me converti na ficção de mim mesmo que qualquer sentimento natural, que eu tenho, desde logo, desde que nasce, se me transtorna num sentimento da imaginação – a memória em sonho, o sonho em esquecer-me dele, o conhecer-me em não pensar em mim.

De
tal modo me desvesti do meu próprio ser que existir é vestir-me. Só disfarçado é que sou eu. E em torno de mim todos poentes incógnitos douram, morrendo, as paisagens que nunca verei.


págs 401,402
Livro do Desassossego, Fernando Pessoa

Sobre o adeus e o aceno que ele deixa


Há uma vontade presa nesta garganta que, repetidas vezes, se engasga com a própria saliva. Algo obstrui a abertura da fala: você procura e tenta. Mas não, cadê a maldita voz? Há uma incômoda falta de fôlego também, o ar irrita as paredes da garganta, a temperatura dele nos maltrata e, com isso, parece se intoxicar cada respiro de vida que damos na tentativa de assegurar a parcela dela que ainda nos falta. Enquanto, dentro da gente, escorre o veneno adocicado de mais uma paixão avulsa, com o corpo sentando-se em seguida à cadeira da sala de espera da doença. Os pacientes estarão todos trajando as vestes da evidência. Não haverá médico, menos ainda enfermeiras, pois nesta sala de paredes abertas é à luz do dia que as pessoas esperam. Há doses excessivas de uma estranha calma. Há o consentimento em meio à gritaria do fato. Talvez o que é explícito seja velado por comedimento, mas seria difícil acreditar nesta complacência, sem imaginar que se trata de uma simples falta de sensibilidade. É que a pele está envolta por uma camada de sujeira da qual ninguém a lava.

Resta, enfim, a morte. Sorrateira, ela vem e vai passeando entre as pessoas, derrubando seus corpos no chão ou os prostrando sufocados sobre os joelhos da culpa. Morre com a morte, duas vezes, o amante. Aquele que é motivo e resignação do mal para o qual só se descobre a cura depois do estado já terminal da doença. A morte em dois atos: um, na memória que reserva ao amante o indigno papel de lembrança; outro, desta lembrança que se apaga no imenso palco do esquecimento. Eis de onde é retirado, a golpes de mão aberta, o material disforme do amor, matéria bruta de que a vida é feita. Pena ela estar reclusa pelos cantos da semana, entre as dobras dos dias, os intervalos de hora, o acúmulo de sujeira naquele momento em que os amantes praticavam as desobediências da fala. “Adeus”.

É quando a reminiscência se torna uma má visita, que bate à casa no momento em que já havíamos trancado as portas, que temos noção do imprevisto: não há mais ninguém lá dentro, o local fora abandonado.

Em que lugar distante fui me perder, à procura de um abrigo para os meus desejos?


21 de Fevereiro de 2005

Terça-feira, Novembro 28

Pensamento


"Corrói-me um pensamento atroz:
morrer na cama, entre lençóis
e, como flor quando em sigilo o dente
do verme a rói, fanar-me lentamente,
consumir-me, tal qual vela a queimar

em quarto sem vivalma, devagar."

Petöfi

Segunda-feira, Novembro 27

Lavoura Arcaica


"nos intervalos da angústia, se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero
(...)
o tempo, o tempo, o tempo me pesquisava na sua calma, o tempo me castigava ... que súbito espanto, que atropelos, vendo o coração me surgir assim de repente feito um pássaro ferido, gritando aos saltos na minha palma!”

Raduan Nassar às págs. 9 e 96.


Na foto de Josef Koudelka, o ardil insano da minha razão.

Sábado, Novembro 25

(em Janeiro e depois Julho, 2005)

A névoa


Mis pasos en esta calle
Resuenan

En otra calle
Donde

Oigo mis pasos
Pasar en esta calle
Donde

Sólo es real la niebla
(Octavio Paz)

Porque a névoa é feminina.

Nossa própria confusão sem forma, em uma bela figura sem foco. Olhos empedrados pelo rosto sedutor de uma mulher, enquadrada no ponto de fuga da vista; onde não há para onde ir (de calle en calle) e todo começo do que seja já é fim do que viria a.

À espreita ela nos concede um último fôlego, respire, mas saiba que o ar com o qual ela te alimenta é adocicado feito o perfume de teus tormentos.

Perto demais... Longe o suficiente

Que corações vulneráveis são esses, se apaixonando assim pelo olhar roubado em uma esquina, pelo beijo trocado durante a noite, pelo prazer na cama de algum desconhecido? Corações que costumam se apaixonar sofrem pela incapacidade de amar. Paixão solitária esta que sentem de repente e que, de repente, deles se vai. Para onde terá ido, junto, a descoberta do que é amar? Quando em meio a tudo isso já não há conquistas, há apenas as perdas num cálculo de corpos. Quando já não há sabor nem aroma nem toque, há somente o gosto do prazer, que tão logo se dissipa, enquanto tudo que se tem de um estranho é o que ele leva às costas. O vigor da paixão tira-lhes o fôlego, a vontade os consome de momento, exaustos já não podem respirar o próximo instante. Possuem um peito fraco e uma incapacidade de ressuscitá-lo. E morrem, ainda na primeira manhã de suas vidas. Numa calçada, na qual passeiam sem conseguir atravessar. Sem saberem como. Um não saber que os libertaria, mas que por fim os condena. Afinal, deste mesmo lado é tão bom ficar, olhe só, quanta gente num mesmo lugar... Quanta gente e quanta vontade de atravessar.

Sexta-feira, Novembro 24

O movimento explica a forma

Em Novembro de 2004 escrevi esses pequenos trechos baseados na obra “The travel of romance”, de Eric Fischl. Após escrevê-los todos descobri que era com Clarice Lispector que eu estava dialogando, em “Perto do coração selvagem”.

(scene 1 of 5)

I.

Um deles vai se perdendo no curso da procura pelo outro. Na casa, repousa sobre os cômodos a figura de um belo romance. Só já não há corpo nu que se enrubesça diante da sua presença. A evidência do romance, como uma vertigem que punge o peito em males e sangra dentro as dores, na pele arderia apenas como sensações de êxtase. Mas no escuro da dúvida se ele existe, mesmo que pergunta nenhuma se faça, o romance apenas se dissipa num último silêncio de desvio dela. E os cômodos de corpos em descaso se devolvem às casas que os abrigam em redutos.

Haveria, na figura do romance, uma face enegrecida. Olhando contra a luz, a mulher veria em sombras um olhar que se oculta por malícia. A face enegrecida a convidaria ao silêncio dos olhos do romance. E corrompendo a calma que lhe resta, ele a faria no próprio corpo um ser livre.

Seria a redenção de um corpo entregue, deixando pender a cabeça num alívio do peso de si própria.

Mas não. O sentimento se dissipa num torpor que reveste o corpo afligindo seu interior. O sentimento nu, contra um chão de cimento, à procura do romance não cede ao tempo de seu próprio movimento, perde-o ao se deixar imóvel. Como pode um grito sobreviver contido num silêncio?

Como o nu é a face íntima do corpo, o romance é a marca oculta na pele. Os vê quem veste os olhos com desejos secretos que se despem em vontades explícitas. É no limiar da verdade, onde se ela sutilmente pender torna-se mentira, que mora uma sensação intensa. Lá, onde chave e fechadura se confundem, o tempo adorna o sentimento que cede ao movimento do romance, não morrendo a cada último gozo estéril.



(scene 2 of 5)

II.

Como o nu é a face íntima do corpo, o romance é uma marca oculta na superfície da pele. Ele reveste os olhos com seus desejos secretos e, despindo a própria vista, de vontades íntimas ele prostra o corpo num chão público. É num limiar da verdade que mora o sentimento intenso. O êxtase de um pulo no abismo está neste impulso, não em sua queda. Lá, onde não é lugar, é onde se encontra a tal requerida chave. E, atravessando a ponte em que um nome a corresponde por homem, deixa cair entre os vãos dos dedos um coração se despedaçando no chão.

Dedos de romance se espalham pelos cômodos dos corpos que se misturam um no outro.



(scene 3 of 5)

III.

O tempo torna-se o sentimento de ceder ao movimento do romance... E no espelho do corpo já não há nenhuma marca que o acuse oculto. Quem vê por sobre a pele sem tocar a superfície do corpo? Há apenas um nada a que chamam de vazio, e indo embora com ele, seus desejos e vontades assediam a saída da casa que os abriga...

...são os cômodos dos corpos em descaso, ofegantes na própria moradia em que sobrevivem enquanto se desfazem.



(scene 4 of 5)

IV.

É um rosto de homem aprisionado em máscara? A figura do romance fugiu da casa, que agora abriga um corpo de mulher adulta...

...presa numa solidão feminina.


(scene 5 of 5)

V.

À parte o romance. À parte os cômodos dos corpos que se desfazem. São pedaços manuseados por luvas de descaso. Olha, a mulher, o homem indo embora. Um foco de luz que se espalha às costas e devolve ao corpo, que fica, o nu de uma forma feminina.

Às costas ele carrega o peso do passado na mala, o peso do olhar dela sob os pés do seu descaso pisando o caminho de ir embora. Não ouviriam mais, entre os silêncios que os mantinha, as vozes das palavras que imploravam. O homem não fala à mulher com a voz que ela suplica. Num diálogo sem raciocínio, a parte feminina aponta na mão as linhas da conversa. Não é pelo tato que se descobrem entre dois corpos, um no outro, mas ao deslizar os traços de um carinho que direciona, ao sentirem que a distância possui uma desmedida e é de infinito que ela é feita. O infinito feminino que dura o instante. É de mulher o seu doce aroma de novo a cada mesmo que o difere, uma fragrância sem frasco que aprisione, incontida entre paredes de vidro, agora opacas pelo hálito de homem que fica.

Foi quando um descaso os precipitou, que ele vestiu-se e partiu a casa em cômodos de partes equívocas. De um lado e de outro, a memória como consolo e rastro. Desalinhando os passos na casa, a mulher destruiu os caminhos e cerrou-se num casulo de lembranças, à luz do dia infindável do passado, aquele momento de nenhum fato, no mais profundo de si mesma, sob a pele de qualquer lua e a falta de roupa de qualquer dia, tendo agora pela vida seu superficial e sincero descaso, esculpindo no próprio corpo um abraço em si mesma para sempre dado.

Não há FIM.

*

“Eis-me de volta ao corpo. Voltar ao meu corpo. Quando me surpreendo ao fundo do espelho assusto-me. Mal posso acreditar que tenho limites, que sou recortada e definida. Sinto-me espalhada no ar, pensando dentro das criaturas, vivendo nas coisas além de mim mesma. Quando me surpreendo ao espelho não me assusto porque me ache feia ou bonita. É que me descubro de outra qualidade. Depois de não me ver há muito quase esqueço que sou humana, esqueço meu passado e sou com a mesma libertação de fim e de consciência quanto uma coisa apenas viva. [...]

“Tento isolar-me para encontrar a vida em si mesma. No entanto apoiei-me demais no jogo que distrai e consola e quando dele me afasto, encontro-me bruscamente sem amparo. No momento em que fecho a porta atrás de mim, instantaneamente me desprendo das coisas. Tudo o que foi distancia-se de mim, mergulhando surdamente nas minhas águas longínquas. Ouço-a, a queda. Alegre e plana espero por mim mesma, espero que lentamente me eleve e surja verdadeira diante de meus olhos. Em vez de me obter com a fuga, vejo-me desamparada, solitária, jogada num cubículo sem dimensões, onde a luz e a sombra são fantasmas quietos. No meu interior encontro o silêncio procurado. Mas dele fico tão perdida de qualquer lembrança de algum ser humano e de mim mesma, que transformo essa impressão em certeza de solidão física."


Salvei num pedaço de papel o trecho inteiro. Intitulei “O movimento explica a forma” (é a última frase do trecho) e escrevi que ele ia da página 78 à 83. É da Clarice, em Perto do Coração Selvagem.


*


Post dedicado a vocês.

Quarta-feira, Novembro 22

"Foi sua imobilidade que me fez inclinar fascinado, na primeira vez que vi os axolotes. Silenciosamente, me pareceu compreender sua vontade secreta, abolir o espaço e o tempo com uma imobilidade indiferente. Depois entendi melhor: a contração das brânquias, o tatear das finas patas nas pedras, o repentino nadar (alguns deles nadam com a simples ondulação do corpo) me provaram que eram capazes de fugir desse torpor mineral em que passavam horas inteiras. Seus olhos, sobretudo, me fascinavam. Ao lado deles, nos outros aquários, diversos peixes me mostravam a singela estupidez de seus belos olhos semelhantes aos nossos. Os olhos dos axolotes me falavam da presença de uma vida diferente, de outra maneira de olhar. Colando minha cara ao vidro (às vezes o guarda tossia, inquieto), procurava ver melhor os diminutos pontos áureos, essa entrada no mundo infinitamente lento e remoto das criaturas rosadas. Era inútil bater com o dedo no vidro, diante de suas caras; jamais se percebia a menor reação. Os olhos de ouro continuavam ardendo com sua doce, terrível luz; continuavam me olhando de uma profundidade insondável, que me dava vertigem. "

trecho do conto Axolote, de Julio Cortazar, em Final do Jogo.
Leia inteiro, acessando a Casa Dos Espelhos. E passeie por lá um pouco, te fará bem.


A Idade do Óbvio


Domingos atrás, conversei com Ferreira Gullar. Ele me disse que

"Vivemos na idade do moderno, do pós-moderno, do sempre moderno. O tempo da novidade, da incessante novidade. Da rapidez, do efêmero, do que não dura. O que dura, o que permanece envelhece, enferruja, mofa, apodrece.

A única maneira de impedir que uma coisa envelheça é impedindo-a de durar. Não importa o significado, a complexidade, o difícil de apreender, o que não se entrega fácil, à primeira vista. Só importa o que se entrega logo, o óbvio. O complexo, o difícil de explicar, deve ser descartado: esta é a idade do óbvio."

Oh, Gosh, vivo na época errada.

Segunda-feira, Novembro 20

Em Março de 2005...

ENGRAÇADO? É essa história de falar baixinho pra que ainda se ouça ao lado. Esse simular uma "outra situação" que é encenar o próprio caso. Ou essa vontade chata de dizer, que se não é feito, vira dor de ouvir. Claro que é sobre relacionamento isso tudo. Sorte minha que, nestes casos, eu não tenho um. Alguém se livra do bem-ou-mal-me-quer de estar acompanhado? Seja em que momento for, esta maldita crise de consciência te assedia e você descobre que, sozinho ou com quem for, a tua culpa é ainda ser suscetível ao amor. Tá, é pra ser bonito isso (quando a gente vê ele assim ali ó, não aqui). Tá, nem sempre é um drama (tem filmes que acabam bem, certo?). E, ok, não precisa ser um romance (crônica, conto ou novela?). Se despeça, pois, olha ali, já estão rindo de você. (Eu não disse que era engraçado!?) Até mais tarde, quando lá será ainda e estaremos todos na mesma.

Em Novembro de 2006...

ENGRAÇADO? É essa história de falar baixinho pra que se ouça bem ao lado. Esse simular uma "outra situação" que é já encenar o próximo caso. Ou essa vontade ansiosa de ser ouvido que, se não, vira logo dor de ouvir. Claro que é sobre relacionamentos isso tudo. Já não tenho mais a sorte de viver bem sozinho, mas acredito em novos bons destinos. Afinal, alguém se livra do bem-ou-mal-me-quer de se querer acompanhado? Seja em que momento for, esta maldita crise de consciência te assedia e você descobre que, sozinho ou como for, a tua culpa é ainda ser suscetível ao amor. É bem bonito isso. É também um drama. E é bom que seja sempre romance. Acene, pois, olha ali, ele flerta com você novamente. Engraçado é como nos rendemos a ele. Até mais tarde, claro, quando lá será de volta e estaremos todos novamente.


Quarta-feira, Outubro 11

Viver de desejos não traz a

As fantasias têm de ser irreais.
Porque no momento, no segundo em que consegue o que quer, não quer, não pode querer mais.
Para poder continuar a existir, o desejo tem de ter os objetos eternamente ausentes.
Vocês não querem "algo", querem a fantasia desse "algo".
O desejo apóia fantasias desvairadas.
Foi essa a idéia de Pascal ao dizer que somos realmente felizes quando sonhamos acordados com a felicidade futura.
Daí o ditado: "O melhor da festa é esperar por ela" ou "Cuidado com os seus desejos".
Não pelo fato de conseguir o que quer, mas pelo fato de não querer mais depois de conseguir.
Então, a lição de Lacan é: viver de desejos não traz a felicidade.
O verdadeiro significado de ser humano é a luta para viver por idéias e ideais.
E não medir a vida pelo que obtiveram em termos de desejos, mas pelos momentos de integridade, compaixão, racionalidade e até auto-sacrifício.
Porque no final, a única forma de medir o significado de nossas vidas é valorizando a vida dos outros.

de uma das aulas de filosofia do Dr. David Gale, em Harvard.
Já faz tempo e eu sei. Fiz com que eles não viéssem mais até aqui, por isso. Entende? É, é, não exatamente fiz, mas foi assim que está feito (ou de alguma outra maneira da qual não falo agora, pois quero estabelecer essa). Entende agora, que eu sei.

Não tenho andando mais por aí, esse negócio de alma, espírito, coração, política, tudo foi abandonado. Eu diria, para os outros, que foi guardado, mas pra ti não adiantaria, tu me conhece. Faz alguns meses que tento me convencer de que sim, sim, 'você encontrou tudo de volta'. Mas, não, pois a outra voz interrompe a satisfação dizendo que nunca havia deixado, estúpido. Penso ter abandonado, mas como sem ter deixado? Que perguntinha tola.

Só que, se a única verdade é a que sinto, como vou desconfiar de quem acredito? Não me venha com enganos, pois essa solução é fácil. Nem tudo que se explica é se explicando que convence. Mas, pode deixar, consigo engolir o mundo e ainda assim encontrar um lugar pra me reconfortar. Ainda acredito que o tempo é mais forte que o fato e a verdade está no ar.

00:51, vou tomar sorvete e ver um filme.

ps.: escrever uma frase, que nem a última, é tão estúpido quanto as bobagens das quais mais tu tem comentado ultimamente. Mas, claro, você encontrará uma explicação filosófica pra isso.

Quinta-feira, Setembro 14

AH!, O AMOR...


É tudo tanto e quase, como é tudo outro e nunca. Como se tentativa e erro fossem desespero e ferimento. Depois, o que resta é um enjôo pelo gosto das palavras que vieram à boca, como pelos dias que vierem à tona para te lembrar e ilustrar o desprezo quando se encontrarem. Ao final, o fôlego falta. E tal falta é o que consome.

Uma cicatriz se forma no mesmo lugar em que um amor nasce, já te disseram isso? Seu mal é a delicadeza com que age. Enquanto o amor te carrega, o corpo ele enfraquece. Há um último batimento que te desperta e este despertar não te convida à vida, a atira na cara. O amor reside sendo uma inconseqüência dentro do corpo. Seu mal ali morre, matando a carne que sangra ao sentir dores. Tudo é vão, estreito corredor de silêncio numa sala sem lados. O vazio que preenche o escuro, como a solidão que há entre os corpos que não se tocam.

É como a história de um amor romântico, escrita nos livros que já foram lidos. Antes de ir embora, ela

“Faça uma fotografia do meu rosto e a revele quando eu já tiver partido”.

Um olhar levado embora, como se para sempre estivesse guardado em algum local sem memória, em algum lugar em que alguém perdeu-se tentando procurar. Que lugar era esse? Talvez não seja lugar, seja o peso. Do passado forçando as paredes da memória. “Talvez esta insistência seja tua destruição, tua doença”.

Mas por que ainda insiste nesta palavra? Teu fôlego acaba antes de terminá-la. Não adianta soletrar o amor, inventar novas formas de tê-lo dito nas já desgastadas combinações de sílabas, nem pô-lo preso nas grades de um imenso parágrafo.

Como um quadro.

Lembro de um quadro de Gerhard Richter, você conhece? Uma mulher olhando para trás sem revelar o rosto amparando-se num fundo preto. Pra mim, o preto, ao fundo, é a cor dos nossos semblantes, a face que se forma em nossas caras; sem espelho que reflita, somente a evidência de nossa incapacidade. Talvez me lembre dele porque sei que nunca irei reconhecer aquela mulher na rua, sei que sua face nunca me será revelada, que esta necessidade de enxergá-la, ao mesmo tempo que cria vida à minha vontade, é o motivo de toda a frustração que carrego.

Mas talvez eu me lebre dele por ver-me ali sempre que o olho; ver-me ela sempre que a tento; ver-me preso à leitura de um quadro como se fosse um espelho, refletindo agora a exata figura da minha imagem, um rosto sem forma virado para o nada, que desconhece os traços do próprio semblante, que estará para sempre atado à moldura de um corpo, nada mais.

Não podemos conquistar assim, mas ainda assim tentamos. E por quê? É como o salto a que a vida nos incita a dar para conhecê-la melhor, mas nem sequer o tentamos. Um engano.

Ele olha para o amor com estes olhos de procura. E prevê sua derrota em cada desvio de olhar que o aprisiona. Uma estranha figura que não se forma, mas está ali, atrás daquele dorso que não se torna.

O homem procura a mulher. Ela, procura o amor. E o fim deste mundo está em cada piscar de seus olhos.

Pondo o mundo entre aspas, na tentativa de eximir-se de culpa, talvez o homem adoeça do mal das histórias que lê, não conta. É frágil o sentimento masculino, de uma temeridade pela própria força, que sua fraqueza se torna este comprometimento vão, consigo mesmo. Viris são as idéias de amor que os homens formam, mas nenhuma delas sente o gosto da pele que reveste os sentimentos femininos. A mulher não tem o amor por acaso, como o homem o procura em conseqüência.

Não há fim de história. Há isso que alicia e incita, há o imponderável nu, a ser visto entre os intervalos do que se pretende, mas. Há, portanto, esta má formação. Resta, então, este lamento.


24 de Janeiro de 2005

Quarta-feira, Setembro 13

Fuso-horário

"Tenho imaginado que andamos por diferentes lugares apenas pra, ao final, igualar o saldo de quem somos, feitas as somas e diferenças de todos os cálculos de lugares pelos quais passamos."

Escrito numa carta que foi enviada hoje.

Sexta-feira, Agosto 25

CHAPTER


Chaplin poderia ter sido Hitler, mas não foi.
Hitler poderia ser nome de doença, mas não é.
Chaplin poderia ser nome de remédio, mas também não.

Chapter 1, Chapter 2, Chapter...

[CORTA]

Idolatria não é mainstream.
Mainstream se torna idolatria.
Ideologia e psicologia se confundem e aliciam a Filosofia pra rimar tudo numa ... o r g i a.

A ironia está escrita nas bulas dos medicamentos que elas oferecem.

[CORTA]

Problemas ironizam as soluções.
Respostas profanam perguntas.

[CORTA]

Nós não usamos mais as reticências, dizemos “etc. e tal”.

[CORTA]

E o ponto final? Que grande mentira nos contam.

[CORTA]

O engano é apenas um rasgo no céu aberto da garganta.
E é por ali que engolimos tanta besteira.

Segunda-feira, Agosto 21


PRESENTE PARA VOCÊ



Criança insuportável, esta minha. Brinca e desarruma os cômodos da casa; vai lá fora sem permissão e desaparece quando a chamo; me desafia.

Os desenhos que ela faz, como se fosse “o amanhã”, ela diz, correndo com eles para eu não queimá-los. Às vezes, prega-os às minhas costas, onde ela sabe que eu não posso alcançar. Tem as mãos sujas de tinta, devido à pouca idade, e não adianta pedir-lhe para se limpar.

A merda é que eu só a procuro onde ela já é fuga, sequer a vejo, não consigo nem tocá-la. Mania estúpida de nos torturar, essa.

Ai dela, se um dia eu conseguir pegá-la. A enforcarei com as mãos, que é para eu realmente me sentir vingado. Não agüento mais eximir-me da culpa que trago no corpo, que não consigo alcançar porque, olhe lá, ela a pregou mais uma vez às minhas costas.


28 de Janeiro, 2005.

Terça-feira, Agosto 15

DESILUSÃO


Se torna tão dolorido sentir, que o sentimento é aprisionado em uma garrafa e lançado ao mar para que, quem sabe, um dia se possa encontrá-lo com melhor destino, em algum outro lugar desconhecido. E quando nos lançamos nós nessa garrafa, quem irá nos procurar? Que pessoas são essas, à deriva nesse meio do caminho que não é nenhum lugar?





Segunda-feira, Agosto 14

Eis-me de volta ao corpo. Voltar ao meu corpo. Quando me surpreendo ao fundo do espelho assusto-me. Mal posso acreditar que tenho limites, que sou recortada e definida. Sinto-me espalhada no ar, pensando dentro das criaturas, vivendo nas coisas além de mim mesma. Quando me surpreendo ao espelho não me assusto porque me ache feia ou bonita. É que me descubro de outra qualidade. Depois de não me ver há muito quase esqueço que sou humana, esqueço meu passado e sou com a mesma libertação de fim e de consciência quanto uma coisa apenas viva. [...]

Tento isolar-me para encontrar a vida em si mesma. No entanto apoiei-me demais no jogo que distrai e consola e quando dele me afasto, encontro-me bruscamente sem amparo. No momento em que fecho a porta atrás de mim, instantaneamente me desprendo das coisas. Tudo o que foi distancia-se de mim, mergulhando surdamente nas minhas águas longínquas. Ouço-a, a queda. Alegre e plana espero por mim mesma, espero que lentamente me eleve e surja verdadeira diante de meus olhos. Em vez de me obter com a fuga, vejo-me desamparada, solitária, jogada num cubículo sem dimensões, onde a luz e a sombra são fantasmas quietos. No meu interior encontro o silêncio procurado. Mas dele fico tão perdida de qualquer lembrança de algum ser humano e de mim mesma, que transformo essa impressão em certeza de solidão física.”

Clarice Lispector em Perto do Coração Selvagem

Domingo, Agosto 13


O PRIMEIRO SENTIMENTO


Olha ela, debatendo-se ao ser açoita por ele. A paixão a jogando aos tapas contra os braços do prazer alheio. Enquanto a vaidade prostra-se no chão débil do desejo. Ele a tem e a machuca, não poderia ser diferente. Ela não pede nem suplica, mas ali está porque precisa. E ele a fatiga antes dela sequer ter uma breve imagem do seu rosto.

E, agora, que orgulho ferido é esse? Te levanta. Restam apenas as marcas, vestindo no teu corpo as maldades do amor. O mais próximo que chegará dele serão estas manchas. Que caminho longo ainda percorrerá para descobrir que ele não existe, que não possui um rosto. E não adianta insistir em enlevar uma paixão fugaz, apenas a mate antes que te corrompa ou a satisfaça antes que ela te deixe. Você então cedeu, enfraqueceu teu corpo na entrega de tua vontade e permitiu que ele te tomasse no mais profundo do teu sexo. A posse é esta prostituta parada na esquina, ela oferece teu corpo à loucura dele. Alguém te avisou para não andar por aquela rua? Agora toma tuas coisas e te levanta deste chão. Há ainda uma leve inconsciência do querer. Você sangra e você gosta. É um prazer bandido este, te assaltando a consciência e levando embora tua ingênua prudência.

Não será mais a mesma; com outro orgulho, com menos vaidade. E porque tudo passa, assim como as pessoas que passearão pelo teu corpo, então te levanta.

‘Dele, o que será?’, ainda se pergunta.

Resta apenas o precipício das palavras jogadas, atiradas contra teu ouvido carente, sussurradas entre teus desejos secretos.

‘Quem irá dizê-las de verdade?’, insiste.

A verdade, que engano. O batom com a cor do sexo, espalhado pelos lábios da malícia, é assim como a vontade te beija a boca soletrando palavras vulgares. São os instantes de prazer que o teu vício promete, numa tentativa de saciar um desejo que, antes disso, sorrateiramente te alicia e te consome.

Ele nutre-se da fraqueza do teu corpo, da fácil assunção do mistério que a tua disposição não alcança. De teu medo em relação àquilo que desconhece, como se fosse legítimo um sentimento qualquer, que sequer atravessou a ante-sala do consentimento e cresce à medida que você o perde.

É por isso que você cede, e cai.

Então vê se te levanta e limpa esta tua cara, pois o dia logo clareia e outras pessoas irão notar as semelhanças da doença. Mais uma vítima do amor, que é o nome que dão para ele, sem sequer dele terem visto ao menos suas costas o levando mais uma vez embora.


Fevereiro, 2005

Terça-feira, Agosto 8


LA FONTAINE


Ainda não há um nome razoável para a nossa peça. Nomes razoáveis escondem o quanto são apenas convenientes. E a conveniência, sabemos, só esconde a falta de uma solução que nos foge.

“Você está falando de pessoas ou de nomes? De qualquer modo, não foi uma boa metáfora”.
“Quieto, não o atrapalhe”.

Também falta ainda a soma necessária para subornar os funcionários que montam os cenários e tornam

“tudo tão real, não?”.

Nem temos sequer o montante que se destina a vestir as poltronas do teatro com o público que falta. Pois sem público, você sabe, não se prega peça alguma. Não há nenhum camarim, mas sobram banheiros à disposição dos que

“caguei!”

Tudo o que há para ser dito o é de um único fôlego e ao vivo, sem os atores saberem se é ensaio e o que é realidade. Ou seria o contrário? Só sei que, em meio a isso tudo, há aquelas pessoas inconvenientes que vejo assistindo da coxia. Não sabemos quem as traz, mas sei que ninguém suporta a presença delas ali naquele lugar. Da coxia você percebe as falhas, a armação dos cenários. Tudo perde a mágica, além do que, maquiamos a cara, nossas costas são vulgares.

[Neste momento alguém interrompe e sai de cena].

Obrigado por sua atenção, apesar das distrações. Você tem talento, é difícil se concentrar quando tem gente falando. E quero dizer, de resto, que sequer temos pares de calçados, as personagens ainda estão andando descalças entre os escombros do tablado. Até parece um charme sujar os pés com aquele pó dos palcos.

Mas,“do que se trata a peça?”, você pergunta. “Olha”, eu digo, já um tanto irritado por você me interromper a fala, “ela está repleta de fatos histriônicos e situações bem complexas, não se preocupe com o tema.” Continuo, dizendo que “para entender o conteúdo, há que se saber que a oferta dos fatos se dá numa desatenção do hábito, percebendo que nosso cotidiano é repleto de bons casos”, e me volto para a platéia e faço reverência.

A peça possui esta sutil ironia que a perpassa, você percebe?, costurando as emendas entre suas frases que não dizem nada e seus parágrafos com narradores que fogem para não se responsabilizarem pela autoria das aspas. Não há diálogos porque (chegamos a esta conclusão no último ensaio) eles são apenas “uma pantomima da voz”, “um solilóquio acompanhado”, “eu gosto”, “um silêncio falado”. Muito blá blá blá, eu diria.

Posso falar de mim, aquele que não narra, nem de algo a mais ele sabe, apenas se expõe a uma ironia que o atravessa e, quando o retiram de cena, traz às luzes as personagens que já estavam no palco, mas escondiam-se para terem sua vez privilegiada no espetáculo. Vai lá, é a sua fala agora.

“E que eu não ache que esta peça começa com era uma vez e termina com acabaram felizes para sempre. Ela está sempre entre estes dois extremos, mas que não são de onde se parte, nem aonde se chega.”


16 de Fevereiro, de 2005

Duração

"Apaga-te, apaga-te, fugaz tocha! A vida nada mais é do que uma sombra que passa, um pobre histrião que se pavoneia e se agita uma hora em cena e, depois, nada mais se ouve dele. É uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, nada significando." Shakespeare

"A vida, como um comentário de outra coisa que não alcançamos, e que está aí ao alcance do salto que não demos." Cortázar

Eu já havia dito que o ponto final é uma mentira que nos contam.

Terça-feira, Setembro 13

"O que você quis dizer?" não é uma boa pergunta. Pergunta boa é "você quis dizer que...?" E assim caminha a humanidade, na cultura do "Eu acho" contra a do "Você tem razão". Perceba, não digo que sim, nem digo que não, mas sigo dizendo. E eis, é como as coisas são. São todas e tantas opiniões, que agora tudo é verdade. Aliás, que porra é essa que ninguém sabe? Nada, porque ela nunca foi alguma coisa. São tantos eus espalhados que, me diga, como um deles reivindicaria ter a verdade de todos os outros? Portanto, a verdade é como a vida, todos a estupram para saciar um desejo e, nessa conquista à força, desprezam o rosto de sua vítima. Já que para esse crime não há punição, por ele ser cometido e consentido por todos, as conquistas de cada um intensificam a doença de todos os outros... Já conheceu uma história em que os fatos anteriores eram cenas do próximos capítulos?

Sábado, Agosto 27

Mais um micro-conto.

Ei, mãe, descobri que eu sou um filho da puta.

Quarta-feira, Agosto 24

Muito provavelmente terá sido o HD que queimou. Assim do nada? Não, eu já sabia que estava por. Mas, sabe como é, a gente negligencia. Agora, estou à espera de um técnico que diz que vem, mas nunca aparece. Se ele me disser que foi isso mesmo, pensei, então terei perdido tudo o que já tinha escrito e que não era pouco. Não, eu não tenho tudo manuscrito nem impresso (minha pretensão foi sempre maior que o meu esforço). Sim, eu escrevo primeiro à mão, na maioria das vezes. Então, restam-me os rascunhos. Oh!, obrigado. Mas o que me instigou a escrever-lhes e me fez pensar ainda mais nisso tudo nem foi isso tudo, mas sim o pouco caso que eu tenho sentido, como se isso tudo não fosse nada. “Denis, fiquei sabendo que teu hd queimou, que foda! Mas, veja, fulano de tal um grande escritor teve todos os seus textos queimados num incêndio aos 18 anos. Imagina só o que não havia lá, mas...” Talvez pouco caso por saber que sou um escritor medíocre, se é que o sou, e que, tudo o que foi perdido, nenhuma falta fará à humanidade. De todos esses escritos, lembro-me e resta-me aquela pretensão à qual me referia, e a qual me faz começar o diagnóstico preciso da frase anterior com uma dúvida, que tolo. É, talvez. Portanto, nenhuma palavra minha será digna de um lamento poético por essa perda. Resta-me apenas um micro-conto, que encerra toda a minha precoce existência literária:
Era uma vez uma história que acaba aqui.

Quarta-feira, Agosto 10

Eu estava aqui, fui para e agora estou ali.

Segunda-feira, Julho 4

O Homem Sem Qualidades

4.
Se existe senso de realidade, tem de haver senso de possibilidade
Quem deseja passar bem por portas abertas deve prestar atenção ao fato de elas terem molduras firmes: esse princípio, segundo o qual o velho professor sempre vivera, é simplesmente uma exigência do senso de realidade. Mas se existe senso de realidade, e ninguém duvida que ele tenha justificada existência, tem de haver também algo que se pode chamar senso de possibilidade.

Quem o possui não diz, por exemplo: aqui aconteceu, vai acontecer, tem de acontecer isto ou aquilo; mas inventa: aqui poderia, deveria ou teria de acontecer isto ou aquilo; e se explicarmos que uma coisa é como é, ele pensa: bem, provavelmente também poderia ser de outro modo. Assim, o senso de possibilidade pode ser definido como capacidade de pensar tudo aquilo que também poderia ser, e não julgar que aquilo que é seja mais importante do que aquilo que não é. Vê-se que as conseqüências dessa tendência criativa podem ser notáveis, e lamentavelmente não raro fazem parecer falso aquilo que as pessoas admiram, e parecer permitido o que proíbem, ou ainda fazem as duas coisas parecerem indiferentes. Essas pessoas com senso de possibilidade vivem, como se diz, numa teia mais sutil, feita de nevoeiro, fantasia, devaneio e condicionais; crianças com essa tendência são educadas para se libertarem dela, e lhes dizemos que tais pessoas são utopistas, sonhadores, fracos, e presunçosos ou críticos mesquinhos.

Quando os queremos elogiar, também chamamos esses loucos de idealistas, mas obviamente tudo isso apenas se relaciona aos espécimes frágeis, que não podem entender a realidade, ou talvez fujam dela; portanto, pessoas nas quais o senso de realidade é uma falha. Mas o possível não abrange apenas os sonhos de pessoas de nervos fracos, e sim os desígnios divinos ainda desconhecidos. Uma experiência possível, ou uma verdade possível, não são iguais à experiência real e verdade real menos o valor da realidade; ao contrário, ao menos do ponto de vista de seus seguidores, têm em si algo divino, um fogo, um vôo, um desejo de construção e uma utopia consciente, que não teme a realidade mas a trata como missão e invenção. Afinal, a Terra não é velha, e aparentemente nunca foi muito abençoada. Se quisermos distinguir entre si as pessoas com senso de realidade e senso de possibilidade, basta pensar em determinada quantia de dinheiro. Tudo o que mil marcos contêm em possibilidades está ali contido, sem dúvida, não importa se possuímos os mil marcos ou não; o fato de o Sr. Eu ou o Sr. Você os possuírem acrescenta tão pouco aos mil marcos quanto acrescentaria a uma rosa ou uma mulher. Mas um louco os enfiará na meia, dizem as pessoas realistas, e um empreendedor há de realizar alguma coisa com eles; até a beleza de uma mulher sofrerá indubitavelmente acréscimo ou perda segundo quem a possua. É a realidade que traz as possibilidades, e nada mais errado do que negar isso. Mesmo assim, no total ou na média serão sempre as mesmas possibilidades repetidas, até chegar uma pessoa para a qual uma coisa real não signifique mais do que o imaginado. Será ela quem dará sentido e destinação às novas possibilidades, que há de provocar.

Mas um homem desses não é um caso muito claro. Já que, na medida em que não forem devaneios ociosos, suas idéias são apenas realidades ainda não nascidas, naturalmente também ele tem senso de realidade; mas é um senso para a realidade possível, e chega ao seu objetivo muito mais devagar do que o senso para possibilidades reais, que a maioria das pessoas possui. Ele deseja a floresta toda, o outro quer as árvores; e floresta é algo difícil de expressar, enquanto árvores significam tantos e tantos metros cúbicos de determinada qualidade. Ou talvez se exprima isso melhor de outro modo, e o homem com senso comum de realidade se assemelha a um peixe que abocanha o anzol sem ver a linha, enquanto o homem com aquele senso de realidade, que também se pode chamar senso de possibilidade, puxa uma linha pela água e não tem idéia se existe uma isca presa nela. Uma extraordinária indiferença em relação à vida que morde a isca traz consigo o perigo de fazer coisas totalmente aleatórias. Um homem sem senso prático – ele não apenas parece assim, mas é assim – é inconfiável e imprevisível no trato com as pessoas. Cometerá atos que lhe significam outra coisa do que para os demais, mas tudo o deixa tranqüilo, desde que possa ser sintetizado numa idéia extraordinária. Além disso, ele hoje ainda está muito longe de ser conseqüente. É bem possível que um crime que prejudique a outros lhe pareça apenas um erro social, cuja culpa não cabe ao criminoso mas à ordem social. Mas é de duvidar que, recebendo uma bofetada, ele a considere insulto da sociedade, ou tão impessoal quanto lhe pareceria a mordida de um cão; provavelmente, primeiro ele devolverá a bofetada, depois pensará que não devia ter feito isso. E por fim, se lhe roubarem uma amada, ele hoje ainda não conseguirá ignorar inteiramente a realidade desse fato e consolar-se desse perda com uma emoção nova e surpreendente. Essa evolução ainda está em curso, e para o indivíduo representa ao mesmo tempo fraqueza e força.

E como a posse de qualidades pressupõe certa alegria por serem reais, podemos entrever como uma pessoa que não tenha senso de realidade nem em relação a ela própria pode sentir-se de repente um homem sem qualidades.
Livro Primeiro, Primeira Parte. Um espécie de introdução.
Robert Musil

Terça-feira, Junho 28

Teto escuro.

Um dia, eu apaguei. Sombras nos tomando os cantos dos olhos, fora de foco no centro, a realidade virando uma fraca imagem e, de repente! Vento gelado mudando de direção. O açoite ao corpo, deixado por rastros de sensação. Riscando a pele por dentro, a ardendo querendo fugi-la, um calor, e só isso. Uma sensação, mas outra, por ser sempre a próxima. É que você só a percebe quando já te atravessou e agora é outra. Era aquela sensação, agora não, uma nova. Mas só agora não é o bastante, preciso lembrar de antes. E talvez seja assim que eu tente reconstruir os passos que me trouxeram até aqui. Nublou-se a vista, você lembra?, as sombras em volta, no canto dos olhos como piscadelas. Mas eu não piscava. Olhava para os lados me perguntando, mas já era. Tarde agora, está escuro. Lembro de algumas coisas, mas me perco entre uma memória e outra ou seriam lembranças apenas?, não sei, estou na memória a percorrer pequenos passos que sustentassem um caminho. Um caminho qualquer. Que eu caminhe por ele. Quero ainda sair daqui, não quero refazer o círculo. Dou voltas em torno de. Nem sei bem o que. Acreditei demais que seria sempre possível ou então nunca seria impossível. A mesma coisa. Fiquei entre a crença e a evidência. Sem descobrir que é ao intervalo que devo atenção, ali estamos, onde eu provavelmente estava, mas não, não percebia por talvez ser a evidência que eu buscava. A gente olha a certeza. E duvida dela. Como assim? Não sei, é como é. Para que explicação? Pára de se perguntar. Pára de me perguntar. Quando abri os olhos, não mais estava. Tudo é escuro, dizem que por não haver luz. Mas eu enxergo a luz e ela é negra. Vejo pássaros voarem ao longe, mas por que pássaros? Não quero ver pássaros nesta hora. Mas a memória é assim, não nos deixa lembrar daquilo que precisamos na hora em que precisamos. Vejo pássaros, depois vejo bicicletas, mas vejo das bicicletas as rodas, ou melhor, aqueles ferrinhos que prendem o pneu à... sabe?, é que esqueci o nome. Como esquecemos facilmente. Memória fraca como a vista que vai embora. Hoje, faz algum tempo, não sei quanto. Estive por aí a caminhar, mas alguém me diz se saí do mesmo lugar? Ninguém me diz. Pareço não andar, não me situar, não estar em nenhum lugar. E, quando eu sair, talvez nem lembre onde estive. Só sei que estou nesse lugar, que não é nenhum, tentando lembrar o que me empurrou até aqui e me deixou sem saber como vim parar.

É como um conto, que diz que "um dia você acorda e nada mais te resta na memória, se não teu momento de morte."

Quinta-feira, Junho 23

É coincidência que a gente não se dê conta, quase inscientes, de que as coisas se dão evidentemente por acaso? (Pausa para pensar) Mas que o acaso não é um tapa de surpresa na cara, e sim um abraço que vem de trás pelo destino? Hi!, espera aí, misturou tudo agora: acaso, surpresa, destino. Talvez tu esteja querendo dizer que o acaso é um acontecimento dentro do qual o destino que o trouxe só é uma surpresa devido nossa desatenção, é isso? (Pausa para pensar) E que passado o susto o abalo o espanto, percebe-se que o antes e o depois não eram tão distantes assim e, mesmo não estando escritos previamente, a tendência era que diminuíssem só esta e mesma, única, medida que os separava? (Mais pausa) Isso, é bem isso que estou querendo dizer. Mas eu pretendia dizer também que a gente procura pelo destino, estamos à espreita, olhamos à frente, ainda que ele nos surpreenda vindo de trás. Pela surpresa, não procuramos, ela simplesmente nos estapeia de repente. Entendeu que são quase a mesma coisa, mas ao mesmo tempo completamente diferentes? Entendi. Tu está querendo dizer que o destino não é tão autônomo quanto a gente considera, nem a surpresa é tão importante quanto a gente às vezes pensa. E muito menos o acaso é tão acaso quanto todos imaginam. Mas, e a coincidência, onde entra? Então, não fosse coincidência, nos daríamos conta e esse diálogo nem existiria, ou melhor, tudo estaria tão claro, como supõem, que sequer eu poderia conversar comigo mesmo como estou fazendo bem agora. Mas isso... Isso você não vai entender.
da série Monólogos.

Terça-feira, Junho 21

Num canto de mesa, o cigarro se apóia ao cinzeiro. A fumaça desenha uma luz fosca. Ele entra. Pega a arma. E sai. No canto da mesa, o cigarro cai pra dentro do cinzeiro. Ninguém entra. Cadê a arma? Não há fumaça.
Nem luz
O título da valsa que toca grudada aos fones de ouvido dela apoiados ao sofá da sala que com a porta entreaberta o deixa passar despercebido aproximando-se por trás
(As luzes se apagam)
- Quem está aí?
- Não há ninguém aqui.
- Por um momento eu imaginei ter sentido passos.
- Eram os teus.
- É verdade... mas o que é isso que está fazendo?
- Não faça perguntas tolas.
- Calma, calma, meu cabelo enroscou na fechadura.
- Fale baixo.
é "La niña". E ele, el niño. Crianças que brincam de esconder. Ninguém mais as acham, ficaram lá atrás, em algum lugar deixado na infância. Cresceram adultas, se perdendo dos pais. E agora nutrem a avareza dessa idade madura num corpo de juventude. Elas têm vontades e agora também têm força. Ele a estapeia, tonta, está tonta, e a esmurra na nuca. O teto fica escuro feito final de música, fade out... Ele sai de cena com ela pelos cabelos. E ao cigarro as cinzas, na ponta de uma mesa.
Por que, por quê?
Passearam de mãos dadas, naquela tarde. Acostumados ao céu enegrecido da Racoletta, estavam sob a luz intensa de Santa Marta. O som alto das vozes no parque, você não se irrita com muita gente em parques? Se fosse em um shopping, tudo bem, mas em um parque? E desceram por ruelas estreitas, cruzando o calçadão de um extremo a outro. Na praia, os pássaros têm fios presos às asas. Os cachorros usam laço no pescoço. Os velhos não têm vergonha. O lixo não fede. Você tem dor de cabeça. Olhe como quem a gente conhece, à noite, se torna estranho de dia. É porque o dia descolore os olhos. Ou porque a noite embriaga a visão. Quem era aquele estranho? Não havia nenhum... Cala a boca! Os olhos do dia crispam a vista da noite. As luzes se apagam. Os corpos se tateiam na escuridão.
- É insolação. (Ele diz)
- Disse o médico. (Ela diz)
- Como? (A avó diz)
- O médico disse que é insolação. (Ele diz)
- E eu sabia que era in... (Ela diz)
- Você sabia porra nenhuma, nunca sabe porra alguma. (Ele diz)
- Parem vocês dois, já vão começar? (A avó diz)
- E já começaram.
Os pais os deixaram sozinhos. Feriado prolongado, pessoas aos milhares na casa. De onde toda essa gente? E só porque a casa não é deles, se comportam feito animais. Acho que são animais. Acho que são animais. Eu acho sim .
Ontem, no jornal, a manchete: "jovem tira a própria vida, após assassinar a namorada e a avó". Até hoje não sei se ele matou a avó dela ou se a sua própria. A matéria também dizia que, segundo os amigos, a festa era de despedida. Voltariam para a cena urbana? Afinal, ele não estava de malas prontas para algum lugar conhecido de todos. O detalhe que mais intriga os investigadores, ainda, é o fato dele ter assassinado a avó (que ainda não sei se dele ou dela) antes de tudo. Por quê?

Quinta-feira, Junho 16

As rimas do descaso

Deixaríamos tudo assim? (Como nunca foi. Nem nunca será. Mas ainda achando que isto seria estar bem. Continuaríamos brincando de um modo equívoco de nos dizer. Fazendo de conta que falamos de quem somos como se fôssemos uma terceira pessoa. "Nós". Dizendo por aí que o que um queria era bem aquilo que o outro... e mantendo a ilusão de que "eu também, querida". Então, faríamos belas caras de retrato e posaríamos para as fotos às quais nos convidassem. E nem pensaríamos em esconder os rostos, pretendendo fugir ao embaraço de quando os olhássemos e neles descobríssemos a nós mesmos por acaso. Deixaríamos assim, com uma expressão reservada na cara, simulando que com ela esteve tudo sempre tão entregue... E depois a usaríamos como arma, ao machucarmos um ao outro, quando cobrássemos explicações do desastre eminente na bela imagem que tínhamos. E, ao final, teria sido um belo retrato do quanto estivemos juntos).

Não, não! Vamos é deixar de tentar e ceder logo à ruína desse nosso fracasso. É explícito, os outros comentam. Vamos é despir a energia do corpo, entregando-o ao próprio cansaço. Chega de guardar as verdades nas gavetas dos móveis usados. E, quando for o caso, vamos fingir daquele nosso jeito dissimulado, que tudo foi dito, que tudo estava bem claro. Vamos é escrever em frases longas e perder o fôlego na tentativa de entender o significado. E brincar então de sermos fiéis a esse jogo descarado. Posar com um sorriso falso enfeitando o retrato. Vamos tropeçar o passo e nos separarmos, um para cada lado. Oferecendo culpa ao retribuir com maldade. Vamos é ser repugnantes aos olhos da maioria. Xingar um ao outro para demonstrar nossa fraqueza. Aliar a raiva à nossa culpa e juntá-la ao fracasso. E então ser aqueles que desprezam o destino por não tê-lo submisso como queriam... Eu quero que você seja assim, pois é como eu estarei sendo desse outro lado. E quando nos encontrarmos, vamos fingir desconhecer o passado e insistir na boa imagem de que estamos melhor agora, bem longe de onde estávamos. E sorrindo assim com ironia, para que o sarcasmo seja nossa arma. Vamos logo assumir o cinismo, falar que não meneando a cabeça por desprezo. Vamos assim nos confundir, gritar mais e mais alto, discutindo o que sequer foi questionado. Vamos, enfim, marcar uma data, escrever nela o ponto que sela um final qualquer como esse.

Enfim, vamos nos separar, vamos sim, me deixa, já não queremos mais brincar dessa brincadeira sem nenhuma graça. Já tiraram a foto, pode sair do meu lado. Vamos, vamos desatar esta droga de laço. Seguir o rumo de quem não tem para onde ir. Se foi aquela vontade, se foram os tais desejos. E já era em tempo, afinal, deixamos jogada no chão do tablado a encenação do nosso caso. Vamos dizer adeus e nos despedir, sem um abraço, sem ceder e fazer cara de coitados. Vamos assim, com descaso, jogar tudo para trás e fingir, numa nova brincadeira, que o final é certo assim, com esse sabor de algo ruim, esse gosto de tudo amargo.

Terça-feira, Junho 14

Pontos finais. O ponto final é um passo em falso que se dá descalço ou um pequeno arfar de fôlego no meio do percurso. Descalço, tu sente melhor as condições do terreno, mas por ele ninguém caminha sem seus calçados. E o fôlego, é apenas um breve momento vazio de respiro, quando tu fecha o olho e te concentra, para só depois seguir em frente. Os pontos finais, que são costuras de calendário, servem-nos como servem as molduras aos quadros. Encerram uma paisagem da qual não fazem parte.